4.11.07

Homem de madeira

(Vão reparar que este texto tem como etiqueta 'coleccionador de objectos'. Este é um excerto do tal livro que supostamente ando a escrever de forma não oficial. Decidi colocar aqui umas passagens enquanto vou escrevendo. Gostava de algum feedback!)

Estás aí, sobre esse pedestal que construí. Estás aí, olhando para mim, com essa face sem olhos nem boca. Sem expressão. Mas, de alguma forma estranha, vês através de mim e alcanças o mais íntimo da minha alma. Tocas e remexes e reviras tudo. Desarrumas as minhas memórias como se de roupa e objectos se tratassem. E deixas tudo no chão, espalhado sobre a madeira corroída do meu passado. O que procuras? Algum segredo meu há muito esquecido?
Pára de olhar para mim com esse anonimato tipicamente teu. Pára de remexer nas minhas memórias. Porque me levas à insanidade? Porque ficas aí, imóvel, a olhar-me e a julgar-me? Sim, amei e morri por causa disso. Sim, entrei no paraíso apenas para me banhar no inferno. Tento ultrapassar isso. Cortar com o passado.
Porque continuas a olhar-me assim, dessa forma inexpressiva? Estás sempre a olhar para mim, sempre a julgar-me. Mesmo quando não olho para ti, sinto o teu olhar a soprar-me na nuca. Arrepios. Tu és um simples boneco de madeira articulado. Mas porque me julgas assim? Porque remexes nas minhas memórias? O que procuras? Que queres?
Detesto isto. Detesto tudo. Detesto-te. Se, ao menos tudo acabasse agora... Porque já ninguém me ama. Porque já não vale a pena. Porque a faca que descansa sobre a minha cama talvez consiga oferecer mais do que ele alguma vez deu. Talvez a morte consiga triunfar sobre o silêncio que se gerou entre nós. Tudo o que queria era que acariciasses estes sentimentos longe de mim. Mas, que merda! Porque me olhas assim? Diz-me! Achas-te assim tão superior que me possas julgar de forma tão arrogante? Quem és tu afinal? Porque consegues me olhar até à alma? Eu estou oco.

E continuas a olhar-me assim. A olhar para mim. Mas, afinal, o que procuras dentro de mim?

2 comentários:

Graduated Fool disse...

Cá vai o feedback:

Gosto muito. Muito mesmo. É o tipo de escrita que aprecio. Forte, escorreita q.b, angustiante, dorida e, ao mesmo tempo, digna de uma grande beleza.

Mais uma vez parece que, de certo modo, me revejo nas tuas palavras...

Só mais uma coisinha, uma vez que pedes opinião: Quando escreves "Porque consegues me olhar até à alma?", talvez ficasse melhor "Porque consegues olhar-me até à alma?"...digo eu.

Continua, continua, continua.

TheTalesMaker disse...

Lindooo! Quando editares o livro quero um exemplar, ok?

 

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