23.9.07

Cicatrizes

Encolhido sobre si mesmo, alheio a tudo em seu redor, permanece em silêncio enquanto a sua alma lasca-se em pequenos pavimentos vítreos e se estilhaça sobre o granito onde o seu corpo descansa. Já esteve lá antes - prometeu nunca mais voltar. Mas nunca conseguiu cumprir com esta sua secreta promessa. Sempre que conseguia jurava que ia ser diferente, que ia ser melhor, que 'desta é que é'. Iludia-se. Iludiam-no. E era sempre ele que ficava ali, lascando a sua alma em soluços compulsivos de raiva, dor, pena de si mesmo e solidão. Era sempre ele que ia parar sobre aquele bloco de granito, encolhido sobre si mesmo, enquanto as suas lágrimas cicatrizavam a sua pele em pequenos pavimentos perfeitos. E, mais uma vez, prometeria a si mesmo nunca permitir que ninguém o mandasse de volta àquele bloco gelado de pedra.

Levantou-se do bloco de granito depois de estilhaçar a sua alma por completo. Limpou as lascas vítreas da sua face e despediu-se da pedra. Mas foi com a sensação da pedra lhe ter respondido: até ao nosso próximo encontro...

2 comentários:

Graduated Fool disse...

Este texto está perfeito. Retrata a minha realidade também na perfeição.
Prometemos a nós mesmos não voltar ao mesmo, a não nos deixarem lá no fundo, a anão nos deixarmos pisar...mas acabamos por voltar.
Mas desta vez eu não quero mais, não posso permitir-me a tal. É demasiado doloroso, chego a sentir-me quase morto e não quero, não posso, não deixo.

Anónimo disse...

isso fez me lembrar tanta coisa...

 

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